Tradings paralisam compras de soja com tolerância zero da China
Publicado em: 13/03/2026
Mudanças nas regras de inspeção da soja exportada à China estão provocando um efeito dominó em toda a cadeia da oleaginosa no Brasil, culminando na paralisação das compras das grandes tradings, segundo fontes ouvidas por The AgriBiz.
No limite, o episódio pode travar uma das principais correntes de comércio do País — no ano passado, as exportações de soja à China renderam US$ 34,5 bilhões ao Brasil.
A pedido de Pequim, o Ministério da Agricultura adotou novas regras para emitir os certificados sanitários que possibilitam o embarque da soja. Os chineses não vão tolerar mais cargas com pragas quarentenárias e plantas daninhas que são típicas das lavouras brasileiras, como percevejo, carrapicho e ambrosia.
Depois de ter sido notificado pela China sobre o alto índice de pragas na soja nos últimos dois anos, o Ministério da Agricultura também passou a adotar o critério de tolerância zero nas suas inspeções realizadas nos portos.
Para assegurar a ausência de pragas na soja, os fiscais do ministério estão inspecionando fisicamente cada navio para a China e, em caso de alguma suspeita, retiram uma amostra para análise de laboratório. Os testes têm vindo positivos, o que acaba inviabilizando o envio dos navios à China, já que o certificado sanitário do Mapa não é emitido.
Segundo fontes do mercado, os pedidos de reconsideração das tradings não estão sendo aceitos, obrigando as empresas a realocar os navios. Como a China compra cerca de 80% da soja exportada pelo Brasil, mudar a rota das embarcações não parece algo viável para todos os exportadores.
Além disso, os altos custos de demurrage enquanto aguardam as tradings o resultado dos testes agravam o problema. “Tem 20 navios em análise. Oito deles com testes positivos”, diz uma fonte.
Uma outra fonte disse as amostragens que estão sendo analisadas pelo Ministério da Agricultura não são homogêneas e representativas da carga que, de fato, será exportada.
O argumento dos fiscais é que, para fins de sanidade, a forma como é realizada a inspeção pode seguir critérios diferentes dos praticados usualmente pelo setor privado (as supervisoras que são contratadas pelas tradings para inspeção nos portos). Com isso, os resultados das amostragens acabam sendo divergentes.
Originação travada
Em entrevista à Reuters nesta terça-feira, o presidente da Cargill na América Latina, Paulo Sousa, disse que a empresa paralisou as exportações de soja para a China devido às dificuldades em cumprir as novas exigências para a emissão dos certificados sanitários. Ele também informou que a Cargill interrompeu as compras de soja dos produtores agrícolas.
Outras tradings de grande porte também interromperam as ofertas aos produtores diante da falta de previsibilidade em relação a essa situação. “Toda a originação está travada, pelo menos das grandes tradings. Apenas tradings menores estão indicando preços”, disse uma terceira fonte.
Há riscos de perda de liquidez no mercado de soja e até de armazenamento. A situação só não é mais grave porque os estados onde a colheita da soja está mais adiantada já escoaram boa parte do programa de exportação, lembra a fonte. E no Rio Grande do Sul, onde a capacidade de armazenamento é maior, a colheita ainda não começou.
Mas há muita incerteza no mercado sobre quanto tempo essa situação pode durar. O presidente da Cargill disse à Reuters que há negociações em andamento.
Procurados, Ministério da Agricultura, Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) e Anec (Associação dos Exportadores de Cereais) não responderam a pedidos de comentários até a publicação desta reportagem. A Cargill informou que a empresa se posicionará por meio das entidades.